Como fazer um orçamento com renda variável

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Jackito16 de setembro de 20265 min de leitura

Resposta rápida

Com renda variável, monte o orçamento sobre o seu pior mês dos últimos seis, não sobre a média. Esse piso é o único número com que você pode contar, e os seus gastos fixos precisam caber dentro dele. Tudo o que entrar acima do piso é excedente, e o excedente se divide por uma regra definida uma única vez — por exemplo 50% para a reserva, 30% para metas e 20% para gasto livre — nunca na hora. A média é a armadilha: compromete você com um dinheiro que metade dos meses não chega.

Com salário fixo, fazer orçamento é dividir um número que você já conhece. Com renda variável, o número ainda não existe — e é exatamente aí que quase todo conselho de finanças pessoais para de servir.

Se você ganha por comissão, por nota, por projeto ou pelo que vendeu no mês, o seu problema não é organizar gastos. É que não há nada estável contra o que organizá-los.

A armadilha da média

A primeira coisa que todo mundo faz é tirar a média dos últimos meses e orçar com ela.

É exatamente a decisão errada, por um motivo aritmético: metade dos seus meses fica abaixo da média. Sempre. É o que uma média significa.

Então, se você assume um aluguel, um plano e umas parcelas do tamanho da sua renda média, seis meses por ano não vão fechar. E o buraco desses seis meses é tapado com crédito, que é como uma renda variável vira, silenciosamente, uma dívida fixa.

Orce pelo piso

Pegue os seus últimos seis meses de receita. Se o seu trabalho tem alta e baixa temporada, pegue doze.

Agora ignore a média e fique com o mais baixo. Esse é o seu piso.

MêsReceita
AbrilR$ 4.200
MaioR$ 2.800
JunhoR$ 5.100
JulhoR$ 3.400
AgostoR$ 6.000
SetembroR$ 3.100

Média: R$ 4.100. Piso: R$ 2.800.

A diferença entre esses dois números decide se o seu ano é tranquilo ou acidentado. Os seus gastos fixos — tudo o que é pago de qualquer jeito, todo mês — precisam caber em R$ 2.800. Não em R$ 4.100.

Se hoje não cabem, aí está o trabalho. Não é cortar por cortar: é que um compromisso mensal que só dá para pagar nos meses bons não é um compromisso que você consegue sustentar.

A regra do excedente

Tudo o que entra acima do piso é excedente. E o excedente precisa de uma regra decidida antes de chegar.

Esta é a parte importante: a regra se define uma vez, a frio, e depois não se discute. Uma divisão razoável:

  • 50% para a reserva, até cobrir de três a seis meses dos seus gastos fixos.
  • 30% para metas, o que você estiver construindo.
  • 20% para gasto livre, sem culpa e sem justificar. Essa parte não é um prêmio opcional: é o que faz o sistema se sustentar.

Quando a reserva estiver completa, esses 50% se redistribuem entre metas e livre.

Um mês de R$ 6.000 com piso de R$ 2.800 deixa R$ 3.200 de excedente: R$ 1.600 para a reserva, R$ 960 para metas, R$ 640 livres. Divida no mesmo dia em que cai.

Por que decidir a frio muda tudo

Com o dinheiro já na conta, um mês de R$ 6.000 não parece "um mês bom". Parece o seu novo normal. E é essa sensação que faz você assumir um gasto recorrente que os meses de R$ 2.800 não vão conseguir pagar.

A regra escrita de antemão não tira nada de você. Poupa você de tomar a mesma decisão doze vezes por ano, sempre no pior momento para tomá-la.

Se você é MEI ou PJ, dois fixos que quase sempre ficam de fora

Quem tem renda variável no Brasil costuma ter também uma estrutura que o assalariado não tem, e ela precisa caber dentro do piso:

  • O DAS do MEI é mensal e não depende de quanto você faturou. Em um mês fraco ele vem igual. É gasto fixo, não imposto variável — trate assim.
  • O imposto sobre o que você faturou, se você é PJ ou autônomo. Separe no mesmo dia em que o dinheiro entra, junto com a divisão do excedente. Dinheiro de imposto que fica na conta corrente vira dinheiro gasto.

E tem o que você não tem: décimo terceiro, férias remuneradas e FGTS. Um CLT recebe pelo menos um mês extra por ano sem fazer nada; você não. É mais um motivo para a sua reserva mirar seis meses e não três — ela faz o trabalho que o décimo terceiro faria.

A reserva se mede em gastos, não em receita

Erro comum: calcular a reserva sobre o que você ganha. Não. Calcule sobre o que você gasta, e sobre os gastos fixos especificamente.

Se os seus fixos são R$ 2.500 por mês, três meses de reserva são R$ 7.500. É o número que transforma um mês ruim em burocracia: você paga os fixos pela reserva, repõe quando voltar a entrar, e o orçamento nem fica sabendo.

Com renda fixa recomendam-se três meses. Com renda variável, mire em seis. A diferença não é exagero: é que você vai usar mesmo.

O que revisar todo mês

Três coisas, cinco minutos:

  1. Entrou acima ou abaixo do piso. Se foi abaixo, usa a reserva e segue.
  2. O excedente já está dividido. Se continua inteiro na conta corrente no meio do mês, vai se gastar sozinho.
  3. Os fixos ainda cabem no piso. Uma assinatura nova ou uma parcela que começou podem ter quebrado a conta sem você notar.

O difícil não é o método

O método cabe em uma página. O que fica pesado é sustentá-lo: saber quanto já entrou no mês, quanto disso já está comprometido, se o excedente já foi dividido.

É exatamente o que o Jacko carrega por você. Você conta o que entra e o que sai falando pelo WhatsApp, e ele diz em que ponto do mês você está contra o seu piso — não contra uma média que não existe.

Perguntas frequentes

Por que não posso usar a minha renda média?

Porque, por definição, metade dos seus meses fica abaixo da média. Se você assume custos fixos no tamanho da média, metade do ano não fecha e o buraco é tapado com crédito. Orçar pelo piso faz o contrário: todo mês fecha, e os bons sobram.

De quantos meses de histórico eu preciso para achar o meu piso?

Seis no mínimo, doze se o seu trabalho tem temporada. Com menos histórico, use o mês mais baixo que você já teve e ajuste depois. Um piso provisório e conservador serve; uma média otimista, não.

O que faço nos meses em que entra bem mais que o piso?

Dividir pela regra que você definiu antes de receber, no mesmo dia em que o dinheiro cai. A decisão se toma uma vez, a frio. Decidir no calor, com o dinheiro já na conta, é como um mês bom vira um gasto recorrente que depois precisa ser sustentado todos os meses.

De quanto precisa ser a reserva com renda variável?

Maior do que com salário fixo: de três a seis meses dos seus gastos fixos, não da sua renda. É o que transforma um mês ruim em burocracia em vez de emergência. É o primeiro destino dos meses bons, antes de qualquer meta.

Sou MEI. O DAS entra no piso ou no excedente?

No piso, como gasto fixo. O DAS é mensal e vem igual num mês fraco, então ele precisa caber dentro do seu pior mês junto com aluguel e contas. O imposto sobre faturamento é outra coisa: esse se separa no dia em que o dinheiro entra, antes de dividir o excedente.

Sem décimo terceiro e sem férias, quanto muda o cálculo?

Muda o tamanho da reserva. Um CLT recebe pelo menos um mês extra por ano e tem FGTS por trás; você não tem nenhum dos dois. Por isso a meta são seis meses de gastos fixos e não três: a reserva faz o trabalho que o décimo terceiro faria.

E se um mês nem chegar ao piso?

É exatamente para isso que a reserva existe: usa, repõe no próximo mês que sobrar, e não mexe no orçamento. Se acontecer três meses seguidos, o piso estava alto demais e precisa baixar.

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